28 Julho 2009
Transtorno de Somatização (Nosso Sangue)
Somos a ilusão de algo que queremos perfeito.
Somos racionais,
E morais,
E organizados.
Os nossos deuses são as listas e os calendários.
E sangramos a nossa humanidade higiénica,
Por não sabermos já o que é não ser perfeito
Por isso coleccionamos dias,
Na rotina repetida sem margem de erro.
E raciocinamos,
Domesticamos,
Morremos aos poucos.
E controlamos as lágrimas, o desejo e os sentidos.
E sangramos medo pelo músculo da apatia,
Por não sabermos já o que é ser humano.
Porque já só coleccionamos dias,
Na superioridade paralítica da perfeição.
E damos voltas à cabeça,
Inventamos razões,
Organizamos valores.
E iludimos tudo aquilo que fomos outrora,
Para não sangrarmos a culpa que sentimos
Por não sabermos já o que é a nossa vida.
22 Julho 2009
Bulimia (Haikus)
Os frutos mais doces
Chegam pela primavera
Entre a luz de Maio
II.
O verão atrasa
As horas do meu almoço
Salgado de mar
III.
A folhagem cai
pela lentidão das horas
mortas pela fome
IV.
Por fim vem no frio
da última refeição
o sabor a culpa
16 Julho 2009
Insónia
O sol só agora nascerá de novo,
Como se a eternidade fosse um dia.
E por não conseguir dormir,
Por este sono que abre cicatrizes nos meus olhos,
Deixo uma prece à terra dos sonhos:
Deus queira que eu durma.
Outro dia sem dormir.
O sol dá mais uma volta ao céu,
Como se um dia fosse a eternidade.
E eu, que não consigo ainda adormecer,
À espera que o silêncio não se cale,
Apelo mais uma vez aos sonhos:
Oxalá que eu durma.
Tantos dias desfeitos em sono.
O sol já não sabe se vale a pena,
Como se fosse o fim da eternidade.
E eu, que vejo acordado o fim dos tempos,
À espera que o silêncio fale bem de mim aos deuses,
Suplico ao mundo dos sonhos:
Que Morfeu me leve nos seus braços.
Mas houve um dia que já não veio.
O sol cessou as suas viagens,
Como se fosse um dia depois da eternidade.
Por enquanto durmo...
O silêncio falará em minha vez.
Distimia
que nos gela a alma e estilhaça o peito,
onde as estrelas não cintilam aos nossos olhos,
(por serem vencidas pela luz da lua)
num castelo feito de ausência,
pelo silêncio das paixões e dos medos,
somos esquecidos pelo amanhã
e esquecemos os nossos dias.
Queima-se a pele à luz da lua
(a pele arde a luz que vem do céu)
e gritamos de prazer quando o vento nos encontra na noite
e suavemente nos alivia as chagas.
Lá, conhecemos a nossa dor,
desvendamos o nosso trilho
(pegadas vadias que deixámos para trás),
porque lá é o nosso destino.
Lá, o tempo que temos é infinito,
mas a noite não tem estrelas, nem alento.
Conseguíssemos nós que o dia chegasse,
que o sol nascesse ao saltar pelos ombros do horizonte,
e não haveria mais ausência, nem silêncio,
nem mais cantos frios de paredes pálidas
(onde nos escondemos da luz da lua),
e talvez cintilassem de novo as estrelas.
Anorexia
Pois só a mente, incansável, se sacia.
Haverá maior perfeição que o triunfo do espírito
Quando este dobra a matéria à sua vontade,
Ordena purgas,
E seca fluidos?
O corpo deixa de existir.
No entanto, o corpo é a essência que produz a vontade.
A matéria tornou-se tudo aquilo que existe,
Que tem de ser dobrado,
Purgado,
Secado.
E por toda esta perfeição do espírito,
Por todo este triunfo que sacia a mente,
O corpo já há muito deixou de existir.
Vermelho
Onde folhas avermelhadas de Outono voam ao vento,
Com um sopro de vida,
(com um sopro de morte),
Com pressa de se dissolverem em poças de água fria,
De deixarem o destino dar a última palavra...
Num rio de ouro, feito de asfalto sujo,
Onde as luzes de néon encarnado inflamam os sentidos,
Avivam o desejo,
(atiçam a carne)...
Onde se chama pelo nome da loucura,
E se acende no escuro a chama rubra do pecado...
Num rio de ouro, feito de asfalto mordaz,
Abraçada pela cidade já escurecida pela noite,
Encostada a um poste de ferro e cimento,
(de prata e diamante),
Com uma aura de luz vermelha em sua volta,
Como um facho marcescente pronto a se extinguir...
Num rio de ouro, feito de asfalto podre,
Esquecida pela cidade já perdida pela morte,
Chamando alguém com as suas parcas roupas,
(com o seu vestido de princesa)...
Escondida de todos,
Embora todos a vejam...
Num rio de ouro, feito de asfalto vermelho,
Como uma forasteira na sua própria cidade.
Pode chover lágrimas de sangue,
(lágrimas de sangue abençoado)...
Que ela estará lá,
No seu parque encantado,
Com o seu vestido de realeza,
Com um sorriso da mais pura alegria,
(da mais pura inocência),
À espera do seu príncipe prometido,
Para apanhar do chão as folhas avermelhadas de Outono,
Feitas cinzas de pecado...
01 Fevereiro 2009
Os Pecados Vitais
E procuro agora entre a pena e o papel este orgulho que já sou.
Anseio ser maior, ter o mundo, poder chamar o que quiser pelo nome que eu lhe der. A vaidade é só a frustração dos outros. A vanglória é a vida eterna entre a história dos homens. O que é dito em nome de alguém conivente é incomparavelmente maior do que tudo o resto. São apenas o que de melhor se pode viver da vida.
São os pecados vitais da nossa procissão dos dias.
Os anos passam lentos, irremediavelmente lentos, até ao ano zero do fim. O empenho ceifa a placidez dos dias que por nós passam. Sem a moleza de uma alma preparada para conhecer o tempo que nos morre nas mãos não existirá nunca essa plácida loucura daquilo que faz o mundo. Por isso não vale a pena sequer sangrar palavras do nosso peito com o cinzel daquilo que nos mata. Tenho inveja daqueles que querem apenas mais da candura das coisas brandas.
Entretanto, enquanto os anos contam decrescente o crescendo da nossa perdição, seremos cada vez mais aquilo que temos, e pareceremos cada vez melhor apenas aquilo que mostramos. O que existe além disso é o prazer que de nós arrancamos com o calor da nossa carne lasciva, e apaixonada, e sexual, e sensual, e imoral, e sodomita, e onanista, e masoquista, e fetichista, e virginalmente repugnante para as putas que se lambuzam com a fé no desmaio espástico de prazer divino da forte penetração física e espiritual do podre e do fraco e da mentira do espartilho humano.
Nada de divino existe. O que existe é apenas o que há em nós e por nós, e o que temos à nossa volta e controlamos e usamos e usufruímos e chamamos de nosso. Tudo o resto é o pó da metafísica parasitária que nos emprenha as vísceras com as palavras caras do inferno feitas em esquálidos abortos imundos.
Que não se desfaça tudo em meros rastos de trilhos outrora novos e distantes, que esta vontade não se perca na razão da minha vida, que a espuma de raiva no canto da minha boca não seja limpa com a manga dos pútridos, e dos mágicos, e dos filósofos, e dos sábios, e dos falsos estetas, e dos brutos, e dos fantásticos, e dos curandeiros, e dos espirituosos, e dos padres, e das madres, e dos santos, e das santas marias mães de deus que rogam por nós todos e que por nós todos nos matam aos bocadinhos, e dos perniciosos filhos da puta de todas as igrejas, e dos benditos daqueles que são abaixo da santa merda, e de todos aqueles cujo nome deveria ser o maior dos insultos para o maior dos nossos inimigos.
03 Janeiro 2009
Um bom ano de vinte e dois para mim
Fazem-se “resoluções” do ano novo, fazem-se “planos” para o próximo ano de idade. Eu junto os dois. Até que tem vantagens.
E é bom poder fazer resoluções de forma mais confiante e determinada. Tornam a desilusão e a frustração subsequentes mais dolorosas.
Por isso, no ano de vinte e dois barra dois mil e nove vou:
- Chegar vivo e em condições óptimas de saúde e felicidade às próximas resoluções.
E pronto, é isto. Mas vá. Discriminemos.
- Continuar a deitar-me a horas indecentes para a maioria da população.
- Tentar até falhar ser mais responsável nos meus estudos e trabalhos académicos.
- Tentar até falhar ser menos atabalhoado e desajeitado.
- Tentar até falhar ser menos malandro e esquecido.
- Reduzir a quantidade de cigarros fumados até menos de cinco por semana, situação que se afigura fácil, visto que não tenho esse vício.
- Já agora, manter ou tentar manter todos os vícios que tenho, a saber: comer junk food indiscriminadamente; auto-comiserar-me, auto-medicar-me e auto-sabotar-me; ler e navegar pela internet na casa de banho; tomar duches de meia-hora; beber bebidas light e quantidades industriais de chá (com adoçante); chegar atrasado às aulas; desbaratar inúmeras horas a jogar wii; dizer comentários espirituosos e, porque não, metafísicos, sem ninguém lhes ligar nenhuma e, frequentemente, deixando-me chateado e/ou envergonhado; ver séries de televisão antes de dormir e continuar até acabar de ver a série “Friends” sempre durante as refeições; corrigir factos, sintaxe, pronunciação, ou o léxico de outrem com uma pose arrogante; dizer comentários ofensivos sobre as crenças de outrem; oferecer presentes a quem gosto; ler a “dica da semana” ou consultar o site do lidl religiosamente e, consequentemente, comprar coisas úteis e inúteis a bom preço; manter esse estranho vício de não me importar com os “pecados íntimos” dos outros; fazer assaz sexo com a minha namorada; usar muitas vezes a palavra “assaz”. Mesmo que soe muito mal.
- Arranjar ainda mais vícios, de preferência pitorescos, excêntricos, curiosos e agradáveis.
- Ficar excitado com menoridades da vida melancolicamente doces, confortáveis e adoráveis.
- Não fazer exercício, nem precisar de fazer exercício, nem nunca sequer querer fazer exercício.
- Continuar a ter mau feitio, a causar uma má primeira impressão e a chocar destemida e confiantemente com as ideias das outras pessoas.
- Emagrecer as trezentas gramas que engordei na quadra do natal e ano novo. A sério!
- Continuar a gozar, a divertir-me e a brincar comigo próprio.
- Gostar cada vez mais da candura das pessoas que a têm, dos animais, dos dias que não me passam ao lado e de mim próprio.
- Poupar mais dos meus parcos recursos. Mesmo a sério!
- Escrever mais. A sério!
- Continuar a não me levar muito a sério.
22 Setembro 2008
O Estrangeiro
Olha tu, por exemplo! Já não és nada do que foste.
Já foste homem, já foste pai, já foste vida e amor e medos e desejos e ódios e sonhos e pecados. Até já foste morte, vê lá tu! Já foste mais do que muita gente alguma vez conseguiu ser, mas agora és muito pouco, aliás, és quase nada. Para mim já só és quase nada.
E é apenas assim que eu consigo falar contigo, não como homem, que já não és, nem como pai, que já foste, nem como nenhuma das outras coisas que pudeste ser. Só consigo falar com o quase nada que agora és para mim.
Não me leves a mal, não estou zangado, nem triste, nem sinto nada daquilo que as pessoas normalmente esperam que eu sinta. E talvez isso não seja bom. Um dia ainda me acontece como ao Meursault e o pormenor que me condena à morte é não ter chorado no teu funeral. Aliás, eu nem fui ao teu funeral. Que escândalo! Mas aposto que não te importas com isso. Os mortos já não se importam com nada, já não são nada além do que deles há nos vivos. E tem piada a quantidade, quase todas, de pessoas que acham que existe vida depois da morte, ou reencarnação, ou qualquer dessas merdas que as pessoas acham que lhes dá esperanças. Há quem lhe chame esperança, eu chamo-lhe negação.
É outro escândalo, mas é mesmo assim. E só tenho esta certeza toda por tua causa, por me teres feito começar a pensar nestas coisas numa idade em que há tanta coisa mais interessante para pensar. Sim, porque se me perguntar a mim próprio se ainda te queria comigo enleio-me num turbilhão de prós e contras e paradoxos insolúveis que não me dão nenhuma resposta definitiva. Mas quando me apercebo que se ainda fosses vivo eu não teria começado tão cedo a pensar nestas equações metafisicas, e que, das duas uma, ou seria tão absurdamente diferente do que sou e seria algo que odeio (embora aí eu não odiasse) ou não terias o mínimo motivo de orgulho em mim, como, de qualquer maneira, eu já estou habituado mas que não me ofereceria nenhuma utilidade.
Assim sendo julgo que é melhor assim. Ambos nada, mas eu com todo o ser em potencial. E algum desse potencial vem dessa falta, que não existe mais, mas que me deslumbrou e me despertou a consciência para mais do que aquilo a que as outras normalmente têm acesso.
Olha tu, por exemplo! Não consta que tenhas sido um grande livre-pensador. Seguiste a doutrina, mal e porcamente claro, mas também ninguém a segue como deve ser, e o que é que isso te trouxe? Fez algum sentido morrer assim, nessas condições, nessa idade, com essas coisas todas que eras?
Não é por estares morto que não me consegues responder. É porque a resposta, essa resposta que não se ensina, é capaz de gelar qualquer um até ao nada que tu és agora, mas também de despertar a vida de alguém que se sinta feliz por saber que já não há mais nada para dizer quando deixamos de ouvir e não podemos mais falar.
03 Maio 2008
Ainda preciso de mim amanhã
Mas não que eu os veja, talvez nem isso exista hoje.
Se fixar algumas letras num pedaço de papel, além de toda a comoção física que se criará no imóvel meio em minha volta, talvez o que surja dê mais sentido a tudo o que não se mexe e que não existe.
Talvez. Mas não é tanto pela inexistência em meu redor. É sobretudo em mim.
Palavra de honra que é por mim.
É por tudo aquilo que tenho para dizer, claro, como também pela minha vontade de criar algo belo e apreciável, que nem sequer consigo normalmente. Mas é tão mais por tudo aquilo que não consigo que exista, que não provêm daqui de dentro, é pela minha solidão de uma compreensão absoluta de mim.
Sei lá...
Sou eu que construo, nem eu por vezes percebo, e tudo o resto rejeita. Ou pelo menos não percebe. Uma construção simultânea, uma alienação constante, um projecto novo a cada hora. E a incapacidade de seguir, a impossibilidade do agir, a inoperância que me ergueu muito do que sou e penso.
Era só preciso eu procurar-me e dizer
li aquilo, sou eu
ou então nem precisava de falar, palavra de honra que eu nem precisava de falar, bastava que sorrisse e viesse comigo.
Construo-me e não me consigo encontrar. Tem piada. É destas impossibilidades que vêm as obras mal construídas. Dum pequeno pormenor que ninguém pensou, duma pequena incompatibilidade das sinapses cerebrais.
Alguém se esqueceu de me dar um sentido.
Escrevo como quem lança pistas para mim mesmo, ainda preciso mesmo de mim amanhã.
Mas não, não se esqueceram, fui eu que não deixei.
08 Abril 2008
Cupido
Outrora novas e alegres.
Vêm-se parques infantis moribundos, onde já não se ouvem os gritos próprios de crianças a aprender a criar um mundo que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser abandonado, e vêm-se canteiros toscos com árvores mortas e ervas daninhas, lixo jogado fora...
Lixo jogado dentro...
Deixa de se ver pequenos gestos (em pequenos dias) que outrora serviam para algo além dum presente comprado à pressa para alguém que se ama à pressa.
Com toda a pressa do mundo.
Um telefonema feito com muito amor (e muita pressa) a alguém que não devia caber numa agenda tornou-se um sinal de que já ninguém precisa de setas apaixonadas lançadas por algum Cupido arqueiro.
Entretanto, apenas lembrado em postais produzidos em série, tão pessoais como passes de autocarro, esse ser, símbolo de algo além de telefonemas e jogos de telenovela, com o seu arco velho, vazio, já sem sorrir (não consegue), continua voando a custo por entre telhados envelhecidos, antenas esquecidas, e parques moribundos como lixo jogado fora...
Lixo jogado dentro...
Já não acerta em corações abertos, vivos, prontos a serem unidos em laços maiores do que postais escritos com frases impressas em papel pobre.
Em papel podre.
Nem a cidade, que apadrinha uniões nas suas belas entranhas de rios de asfalto, se consegue apaixonar de tão vergada por telefonemas e almoços agendados.
Só resta ao arqueiro apontar uma seta ao seu próprio coração, e esperar meio vivo (meio morto), entre telhados envelhecidos, antenas esquecidas, paredes escurecidas, parques moribundos, almas jogadas fora.
Almas jogadas dentro.
Para descobrir alguém, talvez uma única pessoa, que no meio de tantos postais podres deixe de ter pressa e rasgue a agenda.
17 Maio 2007
Somos nossos
Para esquecermos o tempo e sorrir até de manhã.
Para recordarmos.
(Recorda-me de tudo!
Recorda-me mesmo que ainda não o tenhamos vivido.)
Somos nossos para não sermos perfeitos.
Para sermos melhores.
Para vivermos nas gavetinhas dos nossos peitos.
(Traz-te contigo.)
Somos nossos para acertarmos o passo.
Para vencermos o cansaço.
Para sermos remédio sem efeitos secundários…
(Ela olha para mim e sorri. Diz-me qualquer coisa e de repente sou todo batimento cardíaco.)
Somos nossos para termos saudades.
Mesmo juntos.
(É um tanto querer.)
Somos nossos para nos pedirmos e não nos faltarmos.
Para aprendermos a estar tristes quando não podemos estar alegres.
(Isto é viver.)
Para partilharmos o resto dos nossos dias…
Tal como partilhamos os silêncios dos pijamas…
Somos tudo aquilo que precisamos.
E são nossos os restos dos nossos dias…
Ao sermos nossos.
13 Maio 2007
Efígie
(dos corações que se esquecem)
é apenas mais um anjo de cimento
(um nome de lábios que já não conhecem).
Entardece e a sombra cobre mais dor
(mais um raio de sombra pela ausência)
Daquele homem ao canto do balcão
(sofrendo em solidão de pura demência).
Ao ritmo da culpa do seu pesadelo
(as horas de bar são mais horas passadas)
O seu coração já não lembra se sangra
(os dias não passam de causas falhadas).
E é um murmúrio subtil nas flores
(um vento que lembra despedidas),
É a voz que vem dos anjos de pedra
Quando recordam as asas perdidas.
25 Abril 2007
Viver!
Eu quero amar, descobrir!
Quero vaguear e correr,
Quero gritar! Quero rir!
Viajar, sonhar, imaginar,
Ir aqui, ali, mais além,
Fascinar-me com a vida de alguém!
Quero que venhas comigo também!
Deixem-me mostrar a toda a gente,
A minha vida, o meu eu,
O que em mim há de diferente,
E o que em todos há de meu!
Quero viajar por todo o mundo,
Conhecer este, aquele, o outro!
Amar-te a ti, a mim, a todos!
E que o amor seja profundo!
Viver assim ou assado, tanto me faz!
Não quero viver cansado uma vida fugaz!
Eu vivo, conheço, amo, sonho,
E descubro os tesouros que a vida me trás!
Eu quero viver as mais belas epopeias,
Quero fazer de tudo novidade,
Nos mares, nas terras, no gelo e nas areias!
É apenas mais um dia que me mata de vontade!
Eu sou o deus que cria a minha vida,
E crio aqui, por ali, mais por além!
Apenas quero o local da partida,
E viver por mim e por mais ninguém!
Apenas viver descansado uma vida de paz,
Viver assim ou assado, tanto me faz!
Abril!
Para aqueles que desdenham,
Se não sabem que são livres,
Se não dão valor, não venham!
Se não querem conhecer
As portas que Abril abriu,
Ou se não sabem viver,
Vão para a puta que os pariu!
Vocês têm a escuridão
Nós temos a nossa vida!
Ou se é forte e não se cai
Ou não se encontra a saída!
Se não conhecem as flores
Que aquele Abril floriu,
Peguem nos vossos valores
Vão para a puta que os pariu!
16 Março 2007
Poema Transatlântico
Hearts beat so rapidly it’s hard to breathe
Dreams drown our minds and stop time
Paralyzed in this spot we stand
Eyes peruse the floor afraid to meet
Hands fumble and feet cross
As the wind carries off our muddled words
Silence envelopes us
Prende-nos
Aceita-nos
O mesmo silêncio que quebrámos ao nascer
Que matamos de saudade…
Somos apenas silêncio
Enquanto as nossas mãos se procuram…
Porque não sabíamos nós como se falava?
Vivemos a milhares de palavras de distância.
Olhamos o céu estrelado de desejos
Pedimos um cálido abraço da noite
Procuramos palavras do coração
Que lhe digam mais que um olhar envergonhado…
Murmuramos silêncio…
Until finally, eyes meet
No longer fumbling, hands touch
Suddenly words mean nothing
And our lips brush
The world dissappears
And all that's left is us...
Emanuel Madalena & Sonia Vaz
De costas para o mundo
Estou nele mas viajo ao vento, estou nas nuvens, estou no céu…
Sou agora quem olha para mim, por uns breves esgares que se esgotam no tempo.
Vejo. Sou eu. A minha alma é meiga.
O olhar é deserto.
É a luz que não chega.
É simplesmente a saudade de a ter nas minhas mãos.
Agora estou duas lágrimas mais velho.
Não olho mais para mim.
Deixai-me desejar ser nada.
Nem desejo.
Nem lembrança.
Nem pensamento.
Sonho sim, mas sem sentir…
Hoje, só por hoje, ficarei deitado de costas para o mundo.
A uma certa solidão desconhecida…
E partilhasses comigo os teus dias…
São agora os nossos!
Me olhasses com olhos de lua cheia
Abrisses a mão, largasses areia
Como se ela voasse ao vento como nós!
Como se fosses tu que me acordasses
E estivesses lá quando me deito…
Estás lá no meu sonho!
E eu que não sei como não estar sozinho
Estamos tão perto, mas a meio caminho…
Como podemos morrer se amarmos!
19 Fevereiro 2007
Sou o toque na minha pele e toda a dor que irei conhecer.
Sou um respirar constante e sou o calor que emana de mim.
Sou o meu corpo projectado para o mundo.
Eu sou todos os meus gestos.
Eu sou todos os meus dias.
Tudo o que de mais há neles é meu.
01 Fevereiro 2007
O mais nada
Um velho que coça a cabeça à espera que o dia passe.
De pequenas palavras.
Um “adoro-te”...
É das sensações.
O som da chuva a bater no telhado.
Dos gritos.
De um bebé com fome.
Dos choros.
Pelo tempo que não traz nada.
Dos sorrisos.
Ao ouvir um “adoro-te”…
É de pequenos momentos.
Um dia que nasce, um dia que acaba.
De pequenos murmúrios.
Ao ouvido.
É das simples paixões.
Dos desejos mais puros…
É das coisas simples.
Um pássaro que voa, um sol que brilha.
É dos sentidos.
O cheiro da fruta, o sabor.
É dos incógnitos e dos vulgares.
Dos que vivem sem pensar.
É dos que vivem por amar.
É do simples viver.
Do respirar…
É disto tudo aquilo que escrevo.
E isto tudo é o mais simples.
O mais nada.
O mais banal…
E isto, por ser meu, é a melhor história jamais escrita.