01 Fevereiro 2009
Os Pecados Vitais
E procuro agora entre a pena e o papel este orgulho que já sou.
Anseio ser maior, ter o mundo, poder chamar o que quiser pelo nome que eu lhe der. A vaidade é só a frustração dos outros. A vanglória é a vida eterna entre a história dos homens. O que é dito em nome de alguém conivente é incomparavelmente maior do que tudo o resto. São apenas o que de melhor se pode viver da vida.
São os pecados vitais da nossa procissão dos dias.
Os anos passam lentos, irremediavelmente lentos, até ao ano zero do fim. O empenho ceifa a placidez dos dias que por nós passam. Sem a moleza de uma alma preparada para conhecer o tempo que nos morre nas mãos não existirá nunca essa plácida loucura daquilo que faz o mundo. Por isso não vale a pena sequer sangrar palavras do nosso peito com o cinzel daquilo que nos mata. Tenho inveja daqueles que querem apenas mais da candura das coisas brandas.
Entretanto, enquanto os anos contam decrescente o crescendo da nossa perdição, seremos cada vez mais aquilo que temos, e pareceremos cada vez melhor apenas aquilo que mostramos. O que existe além disso é o prazer que de nós arrancamos com o calor da nossa carne lasciva, e apaixonada, e sexual, e sensual, e imoral, e sodomita, e onanista, e masoquista, e fetichista, e virginalmente repugnante para as putas que se lambuzam com a fé no desmaio espástico de prazer divino da forte penetração física e espiritual do podre e do fraco e da mentira do espartilho humano.
Nada de divino existe. O que existe é apenas o que há em nós e por nós, e o que temos à nossa volta e controlamos e usamos e usufruímos e chamamos de nosso. Tudo o resto é o pó da metafísica parasitária que nos emprenha as vísceras com as palavras caras do inferno feitas em esquálidos abortos imundos.
Que não se desfaça tudo em meros rastos de trilhos outrora novos e distantes, que esta vontade não se perca na razão da minha vida, que a espuma de raiva no canto da minha boca não seja limpa com a manga dos pútridos, e dos mágicos, e dos filósofos, e dos sábios, e dos falsos estetas, e dos brutos, e dos fantásticos, e dos curandeiros, e dos espirituosos, e dos padres, e das madres, e dos santos, e das santas marias mães de deus que rogam por nós todos e que por nós todos nos matam aos bocadinhos, e dos perniciosos filhos da puta de todas as igrejas, e dos benditos daqueles que são abaixo da santa merda, e de todos aqueles cujo nome deveria ser o maior dos insultos para o maior dos nossos inimigos.
03 Janeiro 2009
Um bom ano de vinte e dois para mim
Fazem-se “resoluções” do ano novo, fazem-se “planos” para o próximo ano de idade. Eu junto os dois. Até que tem vantagens.
E é bom poder fazer resoluções de forma mais confiante e determinada. Tornam a desilusão e a frustração subsequentes mais dolorosas.
Por isso, no ano de vinte e dois barra dois mil e nove vou:
- Chegar vivo e em condições óptimas de saúde e felicidade às próximas resoluções.
E pronto, é isto. Mas vá. Discriminemos.
- Continuar a deitar-me a horas indecentes para a maioria da população.
- Tentar até falhar ser mais responsável nos meus estudos e trabalhos académicos.
- Tentar até falhar ser menos atabalhoado e desajeitado.
- Tentar até falhar ser menos malandro e esquecido.
- Reduzir a quantidade de cigarros fumados até menos de cinco por semana, situação que se afigura fácil, visto que não tenho esse vício.
- Já agora, manter ou tentar manter todos os vícios que tenho, a saber: comer junk food indiscriminadamente; auto-comiserar-me, auto-medicar-me e auto-sabotar-me; ler e navegar pela internet na casa de banho; tomar duches de meia-hora; beber bebidas light e quantidades industriais de chá (com adoçante); chegar atrasado às aulas; desbaratar inúmeras horas a jogar wii; dizer comentários espirituosos e, porque não, metafísicos, sem ninguém lhes ligar nenhuma e, frequentemente, deixando-me chateado e/ou envergonhado; ver séries de televisão antes de dormir e continuar até acabar de ver a série “Friends” sempre durante as refeições; corrigir factos, sintaxe, pronunciação, ou o léxico de outrem com uma pose arrogante; dizer comentários ofensivos sobre as crenças de outrem; oferecer presentes a quem gosto; ler a “dica da semana” ou consultar o site do lidl religiosamente e, consequentemente, comprar coisas úteis e inúteis a bom preço; manter esse estranho vício de não me importar com os “pecados íntimos” dos outros; fazer assaz sexo com a minha namorada; usar muitas vezes a palavra “assaz”. Mesmo que soe muito mal.
- Arranjar ainda mais vícios, de preferência pitorescos, excêntricos, curiosos e agradáveis.
- Ficar excitado com menoridades da vida melancolicamente doces, confortáveis e adoráveis.
- Não fazer exercício, nem precisar de fazer exercício, nem nunca sequer querer fazer exercício.
- Continuar a ter mau feitio, a causar uma má primeira impressão e a chocar destemida e confiantemente com as ideias das outras pessoas.
- Emagrecer as trezentas gramas que engordei na quadra do natal e ano novo. A sério!
- Continuar a gozar, a divertir-me e a brincar comigo próprio.
- Gostar cada vez mais da candura das pessoas que a têm, dos animais, dos dias que não me passam ao lado e de mim próprio.
- Poupar mais dos meus parcos recursos. Mesmo a sério!
- Escrever mais. A sério!
- Continuar a não me levar muito a sério.
22 Setembro 2008
O Estrangeiro
Olha tu, por exemplo! Já não és nada do que foste.
Já foste homem, já foste pai, já foste vida e amor e medos e desejos e ódios e sonhos e pecados. Até já foste morte, vê lá tu! Já foste mais do que muita gente alguma vez conseguiu ser, mas agora és muito pouco, aliás, és quase nada. Para mim já só és quase nada.
E é apenas assim que eu consigo falar contigo, não como homem, que já não és, nem como pai, que já foste, nem como nenhuma das outras coisas que pudeste ser. Só consigo falar com o quase nada que agora és para mim.
Não me leves a mal, não estou zangado, nem triste, nem sinto nada daquilo que as pessoas normalmente esperam que eu sinta. E talvez isso não seja bom. Um dia ainda me acontece como ao Meursault e o pormenor que me condena à morte é não ter chorado no teu funeral. Aliás, eu nem fui ao teu funeral. Que escândalo! Mas aposto que não te importas com isso. Os mortos já não se importam com nada, já não são nada além do que deles há nos vivos. E tem piada a quantidade, quase todas, de pessoas que acham que existe vida depois da morte, ou reencarnação, ou qualquer dessas merdas que as pessoas acham que lhes dá esperanças. Há quem lhe chame esperança, eu chamo-lhe negação.
É outro escândalo, mas é mesmo assim. E só tenho esta certeza toda por tua causa, por me teres feito começar a pensar nestas coisas numa idade em que há tanta coisa mais interessante para pensar. Sim, porque se me perguntar a mim próprio se ainda te queria comigo enleio-me num turbilhão de prós e contras e paradoxos insolúveis que não me dão nenhuma resposta definitiva. Mas quando me apercebo que se ainda fosses vivo eu não teria começado tão cedo a pensar nestas equações metafisicas, e que, das duas uma, ou seria tão absurdamente diferente do que sou e seria algo que odeio (embora aí eu não odiasse) ou não terias o mínimo motivo de orgulho em mim, como, de qualquer maneira, eu já estou habituado mas que não me ofereceria nenhuma utilidade.
Assim sendo julgo que é melhor assim. Ambos nada, mas eu com todo o ser em potencial. E algum desse potencial vem dessa falta, que não existe mais, mas que me deslumbrou e me despertou a consciência para mais do que aquilo a que as outras normalmente têm acesso.
Olha tu, por exemplo! Não consta que tenhas sido um grande livre-pensador. Seguiste a doutrina, mal e porcamente claro, mas também ninguém a segue como deve ser, e o que é que isso te trouxe? Fez algum sentido morrer assim, nessas condições, nessa idade, com essas coisas todas que eras?
Não é por estares morto que não me consegues responder. É porque a resposta, essa resposta que não se ensina, é capaz de gelar qualquer um até ao nada que tu és agora, mas também de despertar a vida de alguém que se sinta feliz por saber que já não há mais nada para dizer quando deixamos de ouvir e não podemos mais falar.
03 Maio 2008
Ainda preciso de mim amanhã
Mas não que eu os veja, talvez nem isso exista hoje.
Se fixar algumas letras num pedaço de papel, além de toda a comoção física que se criará no imóvel meio em minha volta, talvez o que surja dê mais sentido a tudo o que não se mexe e que não existe.
Talvez. Mas não é tanto pela inexistência em meu redor. É sobretudo em mim.
Palavra de honra que é por mim.
É por tudo aquilo que tenho para dizer, claro, como também pela minha vontade de criar algo belo e apreciável, que nem sequer consigo normalmente. Mas é tão mais por tudo aquilo que não consigo que exista, que não provêm daqui de dentro, é pela minha solidão de uma compreensão absoluta de mim.
Sei lá...
Sou eu que construo, nem eu por vezes percebo, e tudo o resto rejeita. Ou pelo menos não percebe. Uma construção simultânea, uma alienação constante, um projecto novo a cada hora. E a incapacidade de seguir, a impossibilidade do agir, a inoperância que me ergueu muito do que sou e penso.
Era só preciso eu procurar-me e dizer
li aquilo, sou eu
ou então nem precisava de falar, palavra de honra que eu nem precisava de falar, bastava que sorrisse e viesse comigo.
Construo-me e não me consigo encontrar. Tem piada. É destas impossibilidades que vêm as obras mal construídas. Dum pequeno pormenor que ninguém pensou, duma pequena incompatibilidade das sinapses cerebrais.
Alguém se esqueceu de me dar um sentido.
Escrevo como quem lança pistas para mim mesmo, ainda preciso mesmo de mim amanhã.
Mas não, não se esqueceram, fui eu que não deixei.
08 Abril 2008
Cupido
Outrora novas e alegres.
Vêm-se parques infantis moribundos, onde já não se ouvem os gritos próprios de crianças a aprender a criar um mundo que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser abandonado, e vêm-se canteiros toscos com árvores mortas e ervas daninhas, lixo jogado fora...
Lixo jogado dentro...
Deixa de se ver pequenos gestos (em pequenos dias) que outrora serviam para algo além dum presente comprado à pressa para alguém que se ama à pressa.
Com toda a pressa do mundo.
Um telefonema feito com muito amor (e muita pressa) a alguém que não devia caber numa agenda tornou-se um sinal de que já ninguém precisa de setas apaixonadas lançadas por algum Cupido arqueiro.
Entretanto, apenas lembrado em postais produzidos em série, tão pessoais como passes de autocarro, esse ser, símbolo de algo além de telefonemas e jogos de telenovela, com o seu arco velho, vazio, já sem sorrir (não consegue), continua voando a custo por entre telhados envelhecidos, antenas esquecidas, e parques moribundos como lixo jogado fora...
Lixo jogado dentro...
Já não acerta em corações abertos, vivos, prontos a serem unidos em laços maiores do que postais escritos com frases impressas em papel pobre.
Em papel podre.
Nem a cidade, que apadrinha uniões nas suas belas entranhas de rios de asfalto, se consegue apaixonar de tão vergada por telefonemas e almoços agendados.
Só resta ao arqueiro apontar uma seta ao seu próprio coração, e esperar meio vivo (meio morto), entre telhados envelhecidos, antenas esquecidas, paredes escurecidas, parques moribundos, almas jogadas fora.
Almas jogadas dentro.
Para descobrir alguém, talvez uma única pessoa, que no meio de tantos postais podres deixe de ter pressa e rasgue a agenda.
17 Maio 2007
Somos nossos
Para esquecermos o tempo e sorrir até de manhã.
Para recordarmos.
(Recorda-me de tudo!
Recorda-me mesmo que ainda não o tenhamos vivido.)
Somos nossos para não sermos perfeitos.
Para sermos melhores.
Para vivermos nas gavetinhas dos nossos peitos.
(Traz-te contigo.)
Somos nossos para acertarmos o passo.
Para vencermos o cansaço.
Para sermos remédio sem efeitos secundários…
(Ela olha para mim e sorri. Diz-me qualquer coisa e de repente sou todo batimento cardíaco.)
Somos nossos para termos saudades.
Mesmo juntos.
(É um tanto querer.)
Somos nossos para nos pedirmos e não nos faltarmos.
Para aprendermos a estar tristes quando não podemos estar alegres.
(Isto é viver.)
Para partilharmos o resto dos nossos dias…
Tal como partilhamos os silêncios dos pijamas…
Somos tudo aquilo que precisamos.
E são nossos os restos dos nossos dias…
Ao sermos nossos.
13 Maio 2007
Efígie
(dos corações que se esquecem)
é apenas mais um anjo de cimento
(um nome de lábios que já não conhecem).
Entardece e a sombra cobre mais dor
(mais um raio de sombra pela ausência)
Daquele homem ao canto do balcão
(sofrendo em solidão de pura demência).
Ao ritmo da culpa do seu pesadelo
(as horas de bar são mais horas passadas)
O seu coração já não lembra se sangra
(os dias não passam de causas falhadas).
E é um murmúrio subtil nas flores
(um vento que lembra despedidas),
É a voz que vem dos anjos de pedra
Quando recordam as asas perdidas.
25 Abril 2007
Viver!
Eu quero amar, descobrir!
Quero vaguear e correr,
Quero gritar! Quero rir!
Viajar, sonhar, imaginar,
Ir aqui, ali, mais além,
Fascinar-me com a vida de alguém!
Quero que venhas comigo também!
Deixem-me mostrar a toda a gente,
A minha vida, o meu eu,
O que em mim há de diferente,
E o que em todos há de meu!
Quero viajar por todo o mundo,
Conhecer este, aquele, o outro!
Amar-te a ti, a mim, a todos!
E que o amor seja profundo!
Viver assim ou assado, tanto me faz!
Não quero viver cansado uma vida fugaz!
Eu vivo, conheço, amo, sonho,
E descubro os tesouros que a vida me trás!
Eu quero viver as mais belas epopeias,
Quero fazer de tudo novidade,
Nos mares, nas terras, no gelo e nas areias!
É apenas mais um dia que me mata de vontade!
Eu sou o deus que cria a minha vida,
E crio aqui, por ali, mais por além!
Apenas quero o local da partida,
E viver por mim e por mais ninguém!
Apenas viver descansado uma vida de paz,
Viver assim ou assado, tanto me faz!
Abril!
Para aqueles que desdenham,
Se não sabem que são livres,
Se não dão valor, não venham!
Se não querem conhecer
As portas que Abril abriu,
Ou se não sabem viver,
Vão para a puta que os pariu!
Vocês têm a escuridão
Nós temos a nossa vida!
Ou se é forte e não se cai
Ou não se encontra a saída!
Se não conhecem as flores
Que aquele Abril floriu,
Peguem nos vossos valores
Vão para a puta que os pariu!
16 Março 2007
Poema Transatlântico
Hearts beat so rapidly it’s hard to breathe
Dreams drown our minds and stop time
Paralyzed in this spot we stand
Eyes peruse the floor afraid to meet
Hands fumble and feet cross
As the wind carries off our muddled words
Silence envelopes us
Prende-nos
Aceita-nos
O mesmo silêncio que quebrámos ao nascer
Que matamos de saudade…
Somos apenas silêncio
Enquanto as nossas mãos se procuram…
Porque não sabíamos nós como se falava?
Vivemos a milhares de palavras de distância.
Olhamos o céu estrelado de desejos
Pedimos um cálido abraço da noite
Procuramos palavras do coração
Que lhe digam mais que um olhar envergonhado…
Murmuramos silêncio…
Until finally, eyes meet
No longer fumbling, hands touch
Suddenly words mean nothing
And our lips brush
The world dissappears
And all that's left is us...
Emanuel Madalena & Sonia Vaz
De costas para o mundo
Estou nele mas viajo ao vento, estou nas nuvens, estou no céu…
Sou agora quem olha para mim, por uns breves esgares que se esgotam no tempo.
Vejo. Sou eu. A minha alma é meiga.
O olhar é deserto.
É a luz que não chega.
É simplesmente a saudade de a ter nas minhas mãos.
Agora estou duas lágrimas mais velho.
Não olho mais para mim.
Deixai-me desejar ser nada.
Nem desejo.
Nem lembrança.
Nem pensamento.
Sonho sim, mas sem sentir…
Hoje, só por hoje, ficarei deitado de costas para o mundo.
A uma certa solidão desconhecida…
E partilhasses comigo os teus dias…
São agora os nossos!
Me olhasses com olhos de lua cheia
Abrisses a mão, largasses areia
Como se ela voasse ao vento como nós!
Como se fosses tu que me acordasses
E estivesses lá quando me deito…
Estás lá no meu sonho!
E eu que não sei como não estar sozinho
Estamos tão perto, mas a meio caminho…
Como podemos morrer se amarmos!
19 Fevereiro 2007
Sou o toque na minha pele e toda a dor que irei conhecer.
Sou um respirar constante e sou o calor que emana de mim.
Sou o meu corpo projectado para o mundo.
Eu sou todos os meus gestos.
Eu sou todos os meus dias.
Tudo o que de mais há neles é meu.
01 Fevereiro 2007
O mais nada
Um velho que coça a cabeça à espera que o dia passe.
De pequenas palavras.
Um “adoro-te”...
É das sensações.
O som da chuva a bater no telhado.
Dos gritos.
De um bebé com fome.
Dos choros.
Pelo tempo que não traz nada.
Dos sorrisos.
Ao ouvir um “adoro-te”…
É de pequenos momentos.
Um dia que nasce, um dia que acaba.
De pequenos murmúrios.
Ao ouvido.
É das simples paixões.
Dos desejos mais puros…
É das coisas simples.
Um pássaro que voa, um sol que brilha.
É dos sentidos.
O cheiro da fruta, o sabor.
É dos incógnitos e dos vulgares.
Dos que vivem sem pensar.
É dos que vivem por amar.
É do simples viver.
Do respirar…
É disto tudo aquilo que escrevo.
E isto tudo é o mais simples.
O mais nada.
O mais banal…
E isto, por ser meu, é a melhor história jamais escrita.
20 Janeiro 2007
Que triste não saber florir!
Florir é saber ondular ao vento, quer se esteja sozinha num vaso ou com centenas de outras flores num prado imenso.
Florir é beber da chuva e querê-la. É esticar as pétalas ao sol, sorrir e ser feliz.
Florir também é estar triste, quando está de noite. É fazer da luz em abstracto um motivo concreto para viver.
Florir é não pensar na noite que vem e só pensar no dia que veio.
Florir é gostar das outras floridas. É querer ser igual a elas.
É amá-las.
E admirá-las pelo que são.
Florir é nascer de novo e nunca mais deixar de estar florida.
É sentir falta da primavera e querer simplesmente estar com quem sabe florir.
E que triste é não saber florir!
Não saber ondular ao vento, nem saber querer a chuva.
É triste não saber florir.
Por isso os outros são tristes. Não sabem florir.
É isso que me faz florir sozinho. Sozinho num prado imenso.
Não sou feliz, apenas ondulo ao vento.
10 Janeiro 2007
Dias desenho
Gosto de manhãs frias.
Gosto das tardes sonolentas quando me deixo dormir pelo dia adentro…
Gosto quando eles não prometem nada. Quando são uma página em branco à espera que eu escreva nela alguma coisa.
Às vezes escrevo, às vezes não.
Às vezes desenho. Às vezes rasgo-a.
Só não gosto dos dias que já são páginas de agenda.
E de quando prometem muitas coisas.
Gosto de acordar desenho. Os lençóis são as folhas brancas. Eu sou a cor.
Mas também não me importo que os dias sejam cinzentos. Que eu não seja cor.
Gosto quando sou cinzento e chove lá fora.
E cá dentro…
Já dizia O poeta. Pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove mais.
Mas eu às vezes gosto de andar à chuva.
Só não gosto do vento. Por isso penso menos.
Não penso no vento. O vento é caos. O vento é o turbilhão dos dias de agenda.
Sento-me lá fora a olhar cá para dentro e penso de chuva. A chuva é o sangue que corre por mim.
A chuva diz que está vento. Mas eu não quero saber disso.
A chuva diz que está frio. A chuva fria é a que se sente mais.
A chuva diz que ninguém quer a minha saudade e a minha melancolia. E eu sei que ninguém partilharia a chuva comigo.
A chuva diz que amanhã estará tempo seco. E eu não pensarei em nada.
Amanhã já não chove. O sangue já não corre.
Mesmo assim o dia será desenho.
E eu vou escrever coisas bonitas pelo dia.
Apenas para mim. Para o dia. E para mais ninguém.
Poema Vulva
Reparo leve, como ao brilho,
Uma breve evanescência
De tal parte, com dormência
De franqueza de espartilho.
Mas o que oculta a vista
Do meu incauto tesão,
Será finalmente revista
Com o sentido que resista
Ao aroma pulsação.
E o calor será sentido.
Sentido vulva como fim!
Espalha-se o ser ao comprido,
Toca-se em todo o sentido,
Fazendo do corpo um festim.
E assim se escreve no ar,
Rarefeito por humores,
O poema vulva que a par,
Sem nunca deixar de agradar,
Fluiu de eternos calores.
Escrito em páginas brancas
De algodão marcado a suor,
São poemas que as lembranças
Já não deixam ser crianças,
São poemas de calor.
20 Dezembro 2006
Murmúrio...
É a tal dor que desatina, mas doendo mesmo.
É deixar de cantar.
É pranto.
É ter as mãos geladas sem o coração quente.
Saudade é o céu com nuvens.
É Inverno.
É uma manhã fria sem esperança.
Sem café com leite.
Sem torradas com manteiga derretida.
Saudade é o nevoeiro que brilha ao luar.
É o rio que gela.
É ouvir a chuva a suspirar nos telhados.
Saudade é não conseguir dormir.
É não querer acordar.
Saudade é dor de cabeça.
É suor frio.
É sangrar devagarinho até ficar pálido.
Saudade é arrastar a solidão.
É esmagar o peito.
É viver um pouco menos.
É morrer um pouco mais.
Saudade é perder o comboio.
É ser o último a chegar.
É ficar sempre de fora.
Saudade é odiar o destino.
É negar o mundo.
É querer o ontem.
É não existir amanhã.
Saudade é não ter tempo.
É estar parado.
É envelhecer sem rugas.
Sem netos.
Sem mantas aos losangos.
Sem cabelos brancos.
Saudade é loucura.
É infâmia.
É mentira.
É solidão.
Saudade é o céu sem estrelas.
É moinho sem vento.
É não sentir mais a chuva na cara.
Saudade é não haver razão.
É não saber porquê.
É não querer um sentido.
Saudade é monólogo.
É poema.
É soneto.
É morrer a poesia quando se escreve uma linha.
Saudade é cegueira.
É surdez.
É querer dar os cinco sentidos para ter o sexto.
Saudade é o café frio.
É o pão sem sal.
É a flor sem cheiro.
Saudade é não gritar.
É não dar beijos.
É não tocar.
É não sentir.
Saudade é medo.
É falta.
É um vazio na alma.
É um fim que nos lembra demasiado perto.
Saudade é silêncio.
É sussurro.
É deixar as palavras morrer…
…num murmúrio.
09 Novembro 2006
Um banco em frente à praia

“Anda! Vamos á praia... Vamos ver a estrela da manhã, a ir-se embora, com pena.” Dizes tu enquanto te levantas e me puxas pela mão.
Tínhamos passado todo o resto daquela noite quente de Verão na praia, sentados naquele banco velho.
Naquele banco marcado com infinitas letras e símbolos de amores como o nosso. Se o nosso é igual ao que sempre existiu entre dois amantes, como fazer entender ao mundo que o nosso é maravilhosamente diferente? Deixar mais uma marca naquela madeira branda?
Para já não. Temos uma estrela da manhã que se quer despedir de nós.
…
Agora que o Verão acabou, lembro-me daquele banco em frente à praia.
Lembro-me de como passámos lá o resto daquela noite marcada a estrelas de prata.
Lembro-me dos vestígios vincados na madeira, que desvendámos os seus significados e imaginámos as histórias dos seus autores.
Lembro-me de quando tu me disseste que querias que o tempo parasse naquela noite, e eu te perguntei o que era isso do “tempo”.
“É como um velho homem a acender e a apagar todas as estrelas do céu... Calmamente… À medida que envelhece…” Disseste tu.
E como passou esse tempo.
Agora o Outono arrefece as estrelas da manhã e folhas de cores tristes cobrem aquelas letrinhas que juraram pela nossa eternidade… Ali… Naquele banco em frente à praia.
02 Novembro 2006
Memórias

Não são nada de especial. São apenas memórias.
Lembro-me bem que estava a chover.
De inicio eu encolhia-me, tentando que a chuva não me encharcasse. Mas tu não chegavas. E pouco tempo depois já não me encolhia. Já não me importava a chuva porque por mais pingos que caíssem não me iriam molhar mais.
Então aí fiz parte da chuva.
Senti-me diluir nas poças do passeio e escorrer pela rua abaixo.
Lembro-me bem disso. Estava a chover bastante.
Estava sentado com os braços apoiados nos joelhos. Com as mãos juntas e de dedos entrelaçados.
Lembro-me bem de como gostava de entrelaçar os dedos quando estava à espera.
Entrelaçava os dedos e perdia-me em viagens pelos meus pensamentos, pelas minhas memórias. Olhava o vazio infinito das recordações.
Lembro-me bem disso. Estava a chover bastante, e eu a viajar pelas minhas memórias.
Que estranho.
Tenho esta memória onde me lembro das minhas memórias daquela altura.
Mas lembro-me bem dessas memórias.
Não são nada de especial. São apenas memórias.
Não são memórias de grandiosos reis, de guerras profundas, de valorosos heróis…
Não são memórias de grandes homens, de artistas geniais, de gente importante…
Não são memórias de excitantes descobertas, de vivências felizes, de paixões intensas…
São apenas memórias.
Memórias de dedos entrelaçados quando chove demasiado.
São apenas memórias.
Memórias do tempo em que esperei por ti.